Por Juliane Callegaro Borsa

O presente artigo tem como objetivo apresentar brevemente a teoria de Winnicott, trazendo alguns conceitos importantes no que concerne à constituição do indivíduo bem como abordar alguns aspectos relativos às suas contribuições para a clínica psicanalítica. Para iniciar este texto, será trazido um breve relato sobre sua vida, extraído das obras de Julio de Mello Filho, intitulada O Ser e o Viver: uma visão da obra de Winnicott (2003) e Brett Kahr (1996), intitulada A vida e Obra de D. W. Winnicott: um retrato biográfico. Estas breves vinhetas têm por objetivo trazer um pouco da sua história e, assim, possibilitar conhecer a ligação entre sua experiência de vida e sua teoria.

Donald Woods Winnicott nasceu em Plymouth (1896) e faleceu em Londres, (1971), aos 74 anos de idade. Era filho de um político e uma dona de casa. Foi o único homem e o caçula de duas irmãs bem mais velhas. Além da família nuclear, viviam na casa uma tia, uma babá, e uma governanta, além de uma cozinheira e várias copeiras (Kahr, 1996). Teve, segundo sua esposa Clare, uma infância feliz, passada numa mansão britânica onde a família vivia de modo alegre e descontraído. Em uma autobiografia inacabada, revelada por Clare, Winnicott diz que se sentia um filho único amado por várias mães. Em sua casa, irmãos, vizinhos, amigos e primos viviam jogando e brincando freqüentemente com muita imaginação e vitalidade. Winnicott tinha a liberdade de explorar todos os espaços disponíveis na casa e no jardim e preenchê-los com fragmentos dele mesmo para edificar assim, progressivamente, seu mundo. Todas essas experiências de vida foram utilizadas de modo fecundo nos seus escritos e no seu modo de trabalhar, o que se constata ao longo de sua obra, como é o caso da relevância atribuída à família ou da importância do brincar, aspectos que ele considerou como fundamentais na plena posse da nossa saúde mental (Mello, 2003).

Outro traço da sua família era seu incrível senso de humor, também uma característica de Winnicott, do qual fazia um uso muito inteligente e particular dentro da situação clínica, amenizando o impacto das dolorosas verdades existenciais sobre seus pacientes, entremeando-as com humor, metáforas e uma fina sensibilidade para com os mesmos (Mello, 2003).

Durante sua infância, Winnicott pouco tempo passava com seu pai, que permanecia muito pouco tempo em casa, deixando seu filho rodeado por mulheres, das quais recebia muito carinho e atenção, desenvolvendo um conhecimento incomum a respeito de suas vidas e preocupações particulares. Talvez por essa razão, Winnicott escreveu muito pouco sobre a figura paterna; a maior parte do seu trabalho é centrada na relação materno-infantil (Kahr, 1996). Dentre as contribuições importantes criadas por Winnicott para compreender a relação mãe-bebê, destacam-se os conceitos de ‘Preocupação Materna Primária ’, ‘Mãe Suficientemente Boa ’, ‘Holding’ e ‘Handling’. Winnicott sofreu, por mais de dez anos, de problemas cardíacos progressivos e isso fez com que convivesse muito de perto com a presença da morte, o que aparece claramente na sua autobiografia. Ele também escreveu sobre como era difícil para um homem morrer sem ter tido um filho para poder sobreviver a si. Winnicott sempre sofreu com sua saúde frágil. Já na escola, aos 16 anos, fraturou a clavícula e anos depois ficou internado durante três meses com um abscesso de pulmão. Sobre essas experiências constatou que a melhor maneira de livrar-se da situação de estar nas mãos dos médicos era ele mesmo se transformar em um médico. Também dizia que todo médico, pelo menos uma vez na vida, deveria passar pela condição de paciente. Assim, Winnicott entrou para a medicina, tornando-se pediatra do renomado Paddington Green Children’s Hospital onde trabalhou por 40 anos (Mello Filho, 2003).

Em sua experiência no hospital fez uso de recursos que lhe deram fama como o jogo do rabisco (squiggles), aonde ele e a criança iam desenhando partes e formando figuras que iam se sucedendo. Possuía grande facilidade de comunicação com as crianças que os compreendiam com muita facilidade. Certa vez, Winnicott atendeu uma família da Dinamarca e as duas crianças ficaram com a certeza de que ele falava dinamarquês, apesar dos pais afirmarem que ele nunca falou uma palavra daquele idioma (Mello Filho, 2003).

Winnicott era um clínico extremamente comunicativo e empático com seus pacientes e, ao mesmo tempo, um homem-criador imensamente voltado para si, para seu processo analítico de busca interior e de síntese criativa. Winnicott foi alguém que conviveu permanentemente com o convívio do fantasma da morte sem que por isso deixasse de estar extremamente presente e vivo. Winnicott morreu, segundo consta, debruçado sobre os originais de O Brincar e a Realidade (1971/1975), que ele corrigia para serem publicados.

Sua obra teve sempre uma dupla origem: as observações sobre o desenvolvimento infantil que fazia durante seu contato com crianças, mãe a famílias, por um lado e, por outro, o seu trabalho psicanalítico com pacientes adultos, principalmente com borderlines e psicóticos que reviviam intensamente na análise, num setting muito vivo e acolhedor que ele criava, suas experiências infantis precoces. Essas experiências trouxeram conceitos importantes como o de ‘integração’ e ‘não-integração’ (entre mente e corpo, entre partes do corpo, entre eu e o mundo) que contribuíram, inclusive, para a medicina psicossomática. Dizia ele que as chamadas dores do crescimento das crianças tinham raízes psicológicas e, portanto, não deveriam ser tratadas com o tradicional repouso no leito. Também afirmava que a maior causa de consultas em pediatria ocorriam em função da depressão ou ansiedade das mães. Suas idéias foram rejeitadas por muitos de seus contemporâneos em pediatria (Mello Filho, 2003).

Winnicott destacou-se como uma analista de adultos e foi uma autoridade em análise de crianças, porém igualmente supremo como analista de analistas. Não fundou nenhuma escola e nem se tornou líder de nenhum grupo para poder exercer suas idéias livremente. Num período onde a escola de Ana Freud e de Melanie Klein disputavam espaço no cenário europeu, Winnicott foi uma das principais figuras do chamado middle group (também constituído por Balint, Margareth Little, etc.). Com sua visão de que a psicanálise é uma coisa só, ele tentou durante muitos anos conciliar as duas tendências, freudiana e kleiniana. Winnicott reconhecia que as contribuições de Melanie ajudaram-no a trabalhar com crianças e enriquecer seu trabalho analítico. No entanto o autor dizia que o ser humano não poderia aceitar as idéias agressivas e destrutivas como próprias de si ou de sua natureza sem a experiência de reparação, e por esta razão a contínua presença do objeto amado é necessária neste estágio, pois somente desta forma há oportunidade para a reparação (Mello Filho, 2003).

As suas maiores contribuições talvez tenham se dado nos aspectos do desenvolvimento humano e influenciaram diversos autores como Spitz, Bowlby e Mahler. Essas contribuições incluem os conceitos de ‘ambiente facilitador ’, ‘objeto e fenômeno transicional ’, ‘espaço potencial ’, etc. (Mello Filho, 2003). Winnicott considerava que as experiências vividas, internas ou externas, possuem uma qualidade diferencial dada pelas diferentes formas possíveis de interação entre elas. Buscou um sistema compreensivo do viver humano, onde o ponto de partida da compreensão deste sistema se funda nas condições constitucionais de um indivíduo e nas relações ambientais que o circundam durante este processo. Também esteve atento ao estudo da identidade da pessoa total, do Self, mais do que do instinto e do Ego e seus mecanismos de defesa (Mello Filho, 2003).

Nos dias atuais, Donald Winnicott vem recebendo, por fim, o reconhecimento merecido por suas extraordinárias contribuições oferecidas à Psicanálise. Entre vários méritos, Winnicott foi um dos autores que mais colaborou para afastar a psicanálise de uma posição demasiadamente instintiva, ao acentuar a possibilidade do Ego controlar os impulsos do Id através da ação de um ambiente facilitador, que vai ao encontro das reais necessidades da criança, permitindo sua adaptação à vida familiar e social sem prejuízos na sua individualidade (Mello Filho, 2003).

Quanto à análise e ao espaço terapêutico, Winnicott preocupou-se em não alienar em campos distintos terapeuta e teoria, tendo como objeto de estudo a relação humana com o saber instituído, mais especificamente, o relacionamento entre o psicanalista, o modelo teórico por ele adotado e a prática clínica. Uma passagem ocorrida com Winnicott, relatada a Grolnick (1993) por Clare Winnicott, ilustra claramente sua opinião diante da questão. Num debate acirrado dentro da Sociedade Britânica de Psicanálise sobre determinados procedimentos técnicos, como número mínimo de sessões semanais, perguntaram a Winnicott o que ele achava ser psicanálise ou não. Ele responde sucintamente:- “Se é psicanálise? Ora, depende de quem faz”. Para Winnicott, o espaço analítico é um espaço relacional, um espaço de mudança, criado a partir da inter-relação dos elementos existentes neste espaço – do analista que aceita e deseja a responsabilidade de criar este espaço de convivência dentro de um contexto, utilizando uma espécie de fio condutor e do analisando que aceita compartilhar este espaço e o modifica através de sua participação, produzindo uma dinâmica na qual ambos mudam.

André Green (1988) faz a analogia de que, se Freud às vezes comparava a situação analítica ao jogo de xadrez, poderíamos comparar a obra de Winnicott ao jogo que este criou, o jogo do rabisco, tradução gráfica do espaço analítico, da maneira como ele o percebe. Neste espaço analítico, para Winnicott, a criatividade é a condição do sentir-se real no mundo. Em decorrência disso, a direção do tratamento com qualquer paciente está vinculada à instauração da capacidade criativa muitas vezes perdida, ou sequer adquirida, devido às falhas no processo de trocas do indivíduo com o meio ambiente (Lins, 2006).

A obra de Winnicott, ao encontro do pensamento contemporâneo, pulveriza a crença na verdade única, na supremacia da exatidão, na necessidade da convergência, que traz em seu bojo a imutabilidade. Ela nos abre novas perspectivas onde é possível ser original, é possível ter uma linguagem pessoal e é possível que estas contribuições acrescentem algo ao conhecimento psicanalítico. O trabalho analítico nos ensina que o saber é uma experiência de permanente rearticulação e re-significação, onde as experiências posteriores modificam e reordenam a memória e a compreensão do passado. É esta plasticidade que faz a vida e a psicanálise interessantes e apaixonantes, mas também faz da vida e da psicanálise algo que temos que abrir mão do controle total. A criatividade surge quando se é possível usufruir, sem medo do aniquilamento, o desconhecido. Winnicott nos ensinou que a ação criativa é uma atividade que se estende por toda a existência e nos permite fazer de nosso trabalho uma tarefa que vale a pena ser exercida (Green, 1988; Grolnik, 1993; Mello, 2003). Eis aí o grande colorido da vida e obra de Winnicott!

Green, A. (1988). Sobre a loucura pessoal. Rio de Janeiro: Imago.
Grolnik, Simon (1993). Winnicott: O trabalho e o brinquedo. Porto Alegre: Artes Médicas.
Kahr, Brett (1996). A vida e Obra de D. W. Winnicott: um retrato biográfico. Rio de Janeiro: Exodus Editora.
Lins, Maria Ivone Accioly. A clínica Winnicottiana. Disponível em 20 de dezembro de 2006.
Mello Filho, Julio de (2003). O Ser e o Viver: uma visão da obra de Winnicott. São Paulo: Casa do Psicólogo.
Santos, Marco Antônio. (1999) A constituição do mundo psíquico na concepção winnicottiana: uma contribuição à clínica das psicoses, Psicol. Reflex. Crit., v.12, n.3. Disponível em 18 de dezembro de 2006.

Por Juliane Callegaro Borsa, Psicóloga, mestranda em Psicologia Clínica pela Pucrs, bolsista Cnpq, participante do grupo de pesquisa intitulado Avaliação e Intervenção em Psicoterapia e Psicossomática da Profª Drª Maria Lúcia Tiellet Nunes.
Exerce atividades de pesquisa na área de avaliação psicológica de crianças e adolescentes.